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A violência obstétrica que bate à nossa porta

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por: Viviane Lafene

Arte: Livia Carvalho para Revista Pólen

É muito comum vermos a relação entre parto humanizado e parto domiciliar e precisamos reforçar sempre, humanização nada tem a ver com local de parto, mas sim com todo um processo de retomada do protagonismo da mulher! Tem a ver com respeito!

O PARTO É DA MULHER!

Esta é uma frase que precisamos repetir como um mantra até internalizarmos e fazermos com que transborde nas nossas ações de acompanhamento e assistência ao parto.

No atual cenário em que as cesáreas representam cerca de 50% dos nascimentos no Brasil querer parir não é suficiente. Na contramão desse movimento, muitas mulheres passam a desejar, a sonhar com o seu parto, em viver uma experiência plena, em oferecer ao seu bebê um nascimento e primeiros contatos com o mundo externo respeitosos.

Mas, como disse, querer não é suficiente! Precisamos nos cercar de informações de qualidade, de pessoas que acreditem e partilhem do nosso sonho, procurar relatos de outras mulheres que buscaram o seu parto. E esses são alguns passos do tão falado empoderamento: DESEJAR, BUSCAR, SE INFORMAR. Lembrando que ninguém pode te empoderar, seja obstetra, enfermeira ou doula. Informações podem ser dadas por todas, mas o uso que você fará delas são outros quinhentos.

Certo, você está se sentindo forte e empoderada, participa de rodas de gestantes, faz parte de grupos virtuais e se sente apta a tomar decisões relacionadas ao seu parto. Lindo! Mas, devo confessar, ainda não é tudo.

É preciso mais um passo: efetivamente DECIDIR. Decidir muita coisa: desde o local de parto até quais os cuidados e intervenções você aceitará que sejam feitos com você e com o seu bebê. Aí chegamos em um ponto crucial: eu não sou obstetra, não sou neonatologista, como posso decidir?

E é justamente onde passamos a confiar nas equipes e/ou ambientes de parto que buscamos com cuidado e entregamos algumas decisões do parto aos profissionais da assistência.


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Em ambientes de casa de parto, maternidades e hospitais existem alguns protocolos inegociáveis. Mas quando chegamos no ambiente domiciliar a coisa muda de figura. E é justamente do parto domiciliar planejado que quero falar.

Acreditamos que o parto domiciliar é livre de qualquer tipo de intervenção desnecessária e de violência obstétrica. Cuidado com essa crença! Vamos ter em mente que: A HUMANIZAÇÃO ESTÁ NAS PESSOAS E NÃO NO AMBIENTE.

Se a sua escolha te levou ao parto domiciliar, continue acreditando que o PARTO É SEU, não delegue a terceiros suas decisões, escreva e apresente o seu plano de parto, discuta protocolos, possíveis intercorrências e os procedimentos relacionados a estas intercorrências, esteja atenta às respostas e segurança dos profissionais envolvidos.

E o mais importante: procure relatos de mulheres que foram assistidas por esses profissionais, procure com muita vontade de encontrar mesmo! Os grupos virtuais estão cheios dos mais variados relatos. Se ficou em dúvida sobre algo que leu, converse diretamente com esta mulher e questione o profissional. Porque a violência obstétrica é uma realidade e pode, inclusive, bater à sua porta. Muitas vezes nos silenciamos perante ela, mas lendo nas entrelinhas, conseguimos perceber as nuances da violência. Não se deixe calar. Não permita que qualquer profissional, por mais experiente que seja, se aproprie do seu parto e tire a sua autonomia.

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