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Quando vovó paria

Vovó-pariu
por Daiana Almeida

Desde a primeira vez que pensei em que tipo de parto eu teria – anos antes de engravidar – eu decidi que teria um parto domiciliar, e, portanto, natural.

É quase unânime a pergunta vinda das pessoas que não conhecem o movimento de humanização do parto: “mas você não tem medo?”

Não. Não tenho mais medo do que teria de qualquer processo desconhecido, seja uma viagem para um lugar estranho, uma atividade radical nova, uma inovação no corte de cabelo.

E eu tenho consciência de que esta naturalidade, que é a minha lente de ver o parto, é decorrente da minha história familiar. Família de mulheres fortes, poderosas, parideiras.

Sendo a minha avó a minha principal influência.

E daí que eu me peguei perguntando: como as mulheres da época e contexto da minha avó (interior do Nordeste brasileiro) viviam o parto, que é um evento sexual, de forma tão natural, numa época de tamanha repressão sexual?

Não sei se naquele momento histórico o parto poderia ser considerado um evento sexual.

Mas que era um evento fisiológico natural, isso era. Minha mãe e meus nove tios e tias foram paridos em casa, pelas mãos de parteiras. E eu não consigo imaginar a minha avó ouvindo a pergunta: “mas você não tem medo?”.

E porque era tão natural?

Porque aquelas mulheres já cresciam sabendo que não poderiam fazer sexo com penetração antes do casamento, ou poderiam ter uma gestação e todas as conseqüências advindas. Não ouviam dos médicos que tinham ovários policísticos, que precisavam de pílulas contraceptivas para regular a menstruação aos 16 anos, que tinham o útero virado para frente ou para trás…

Elas acreditavam no corpo capaz de conceber.

Porque aquelas mulheres não tinham ultrassonografias. Não precisavam de uma imagem numa tela para mostrar que seus filhos estavam crescendo bem. Elas viam a barriga crescer.

Elas acreditavam no corpo capaz de gestar.

Porque aquelas mulheres não tinham opção. Não podiam simplesmente dizer “não quero sentir dor”. A dor era uma parte esperada do processo, era natural, era aquela coisa que dá e passa. Elas sabiam desde sempre que teriam que passar por aquilo, e acreditavam no corpo capaz de resistir às dores do parto.

Porque aquelas mulheres viviam num contexto em que o parto não era institucionalizado. O lugar esperado para se parir era em casa mesmo. “Deusulivre” ter que ir para o hospital, o que seria sinal de algum problema. Elas acreditavam num corpo capaz de parir.

Porque aquelas mulheres participavam de outros partos, já que não era um ato médico.

Assistiam aos partos dos irmãos mais novos, ajudavam a vizinha parida, ficavam sabendo dos partos das primas distantes. Quando chegava na hora delas, já não era um evento tão desconhecido. Elas acreditavam num corpo capaz de parir e sabiam que na grande maioria das vezes, tudo dava certo.

Sim. Na grande maioria das vezes, porque sem a medicina não havia opção para os problemas graves (dos pequenos as parteiras davam conta). Então este texto não é uma apologia à volta ao passado.

O que este texto traz nas suas entrelinhas, “entreletras” e “entresuspiros” é um desejo quase utópico de que as nossas mulheres de hoje não buscassem o empoderamento durante as suas gestações. Porque isso não faria sentido numa sociedade em que crescêssemos vendo o parto como um processo fisiológico, natural, familiar e seguro de um corpo capaz de conceber, gestar e parir.

 

originalmente publicado aqui.

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