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A humanização deve ser para todos

parto kuara-9068

por Tanila Glaeser

Em se tratando de auxiliar na retomada do protagonismo feminino, uma das ferramentas que nós, profissionais da assistência ao parto usamos, é a discussão do plano de parto. Dentro dele, entre outros tópicos, está, por exemplo o momento de pedir – ou não – a analgesia de parto.

Quase em absoluto, os planos de parto que já tive em mãos vem dizendo para que seja negado a analgesia caso se peça por ela.

Aqui cabe um adendo rápido sobre analgesia de parto:

– Só é possível a nível hospitalar, logo, em caso de parto domiciliar planejado, há de se fazer uma transferência para o hospital caso a mulher opte pela analgesia;

– Na rede pública não existe a possibilidade de escolha pelo uso da analgesia a pedido, apenas na rede privada;

– Está comprovado em estudos que analgesia de parto aumenta a possibilidade de morbidade materna e de intervenções (analgesia peridural aumenta o risco de bloqueio motor, de parto instrumental, febre materna, retenção urinária, hipotensão materna, leva a maior duração do período expulsivo, mais uso de ocitocina sintética, e está associado a risco aumentado de cesariana por sofrimento fetal. (Fonte: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22161362)

Seguindo na direção dessa assistência humanizada com o foco em respeitar a autonomia feminina, a equipe apresentará as informações e a escolha vai estar registrada nesse plano de parto. Ok.

Seria fácil se o parto fosse matemática, “preto no branco”, simples assim.

Só que não é. O parto vai para muito do que se está racionalmente escrito, vai para o infinito e além!

E onde eu quero chegar com isso. Dentro da subjetividade que é parir, estar passando pelo portal desse renascimento, é preciso se perder para se achar, e nessa “perda” vai no bolo a razão, e ela acaba se confundindo com a emoção. Assim eu já ouvi de um tudo nesse estágio de parto onde há o surto, de “pega uma faca ali na cozinha e faça uma episiotomia agora aqui em mim para tirar esse menino” – essa fui euzinha aqui, tá?! –, “me tire daqui agora e me leve para o hospital, eu quero uma analgesia”, “socorro, chamem a polícia, a SAMU, eu quero uma analgesia”, e por aí vai.

Os olhares cansados, doloridos, depositando em mim uma súplica por vezes me confundem sim! Mesmo que nessa minha jornada de parteira em assistência ao parto domiciliar eu não tenha recebido uma única reclamação por não ter atendido ao pedido de analgesia/transferência, pelo contrário, ter recebido agradecimentos por não ter cedido, fica sempre, lá naquele momento, no olho do furação, uma dúvida: até onde vai o plano de parto e segue o parto real?

Eu fiz uma viagem reflexiva sobre como entender mais o que se pede quando se pede, sabe? Um curso que me ajudou muito nessa visão além do alcance, e o que é bom temos que compartilhar, que foi o Curso de psicologia na assistência Perinatal, do Alexandre Coimbra Amaral. Por vezes, quando preciso sair de cena e respirar para que os vizinhos realmente não chamem a polícia como suplica a parturiente, eu penso em Alexandre, e procuro ver além do pedido da analgesia (e da polícia!), eu procuro ver o que ela realmente quer.

Mas não é fácil gente, pelo contrário, é um momento de muita fraqueza também de nós profissionais. E aí o trabalho em equipe faz sim toda a diferença (amo muito minhas parteiras parceiras). Minha intenção com esse texto foi sim um desabafo, uma forma de lembrarem sempre que somos passíveis de erros, de cansaço, e que “do lado de cá” sentimos um pouco dessa dor e angústia pela qual passam a maioria das mulheres quando surtam e pedem a analgesia (ou pra desistir de tentar e ir pra uma cesariana). E assim, se continuarmos na busca da melhoria da assistência pré-natal, se mantivermos grandes e boas discussões em grupos de apoio, nas rodas de conversa, teremos ainda mais ferramentas para lidar com o que estará nas entre linhas do plano de parto, mesmo que lá não apareçam escritas.

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Coaracy

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