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O parto e os ritos de passagem

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por Carol Lube

Celebrações marcam transições de uma pessoa em sua comunidade. Desde as sociedades mais primitivas, cerimônias especiais, conhecidas como ritos de iniciação ou de passagem aconteciam. Os ritos de passagem facilitam a conexão, transformando a percepção que o indivíduo tem de si mesmo, mas também da sociedade para com ele.

Somos através deles, convidados a fazer escolhas, quase sempre definitivas, definidoras de rumos e abandonando um lugar já conhecido e seguro. Não por acaso esses momentos são marcados com algum nível de angústia, já que vem acompanhados da necessidade de assumir uma nova identidade e, para isso, se faz necessário deixar para trás parte do que se foi até ali.

Alguns ritos são mais inconscientes e instintivos, como o parto, que marca a iniciação da mulher no mundo da maternidade. Um parto, quando respeitado, é uma oportunidade única de conhecer nossa força feminina, mas também de reconhecer a dor e a necessidade de passar por ela, enfrentando o cansaço, esgotamento físico e emocional, ansiedade, angústia, medo e a total falta de controle tão evitada nos dias atuais. Isso tudo para enfim ter a explosão emocional e hormonal quando o bebê está nos seus braços e é possível tocar e cheirar a cria, vivendo o tão sonhado imprinting.

Emoções e sensações tão presentes na maternidade. Por alguma razão temos um tempo entre a concepção e o parto, momento que podemos nos preparar para essa, às vezes longa, às vezes curta, mas sempre intensa jornada.

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E o que esse rito de passagem pode nos ensinar sobre ser mãe?

A amamentação foi para mim a primeira experiência que me fez voltar nas memórias do meu parto. Tive a chance de procurar por aquela mulher que enfrentou longas horas de contrações acompanhada de um esgotamento físico e emocional nunca antes experimentado, era nela que eu buscava a inspiração, força, coragem e garra para manter a minha escolha pela amamentação exclusiva, mesmo quando essa se mostrava tão difícil e exigia de mim tão mais do que eu pensava ser capaz. Não, parto e amamentação não são iguais, mas meu corpo e eu tínhamos memórias de que era possível transpor grandes desafios físicos e emocionais.

O parto me ensinou que a maternidade tem ritmo próprio, que a tentativa de controlar o tempo do sono, das mamadas e os mls de leite que meu peito produzia, assim como o exame de toque no parto, só me oferecia dados que quase nunca tinham uma utilidade de fato.

Me ensinou que assim como no parto me entreguei aos ritmos das contrações, descansando nos intervalos, agora era importante viver um novo ritmo, dessa vez com o bebê, dormindo em outros tempos, e descansando entre uma mamada e outra. E principalmente, a entender que a felicidade de se tornar mãe vem acompanhada de sentimentos ambivalentes, que o choro e o desespero fazem parte, que o medo de não dar conta é absurdo mesmo e que em alguns momentos talvez se torne necessário traçar novas caminhos sim, bem diferentes dos idealizados e essa talvez seja a grande e maior lição do parto para maternidade é entender que a maternidade real, assim como o parto, é bem diferente daquela que sonhamos um dia.

Então aqui cabe uma pergunta: quer dizer que se eu não passei pelo parto, não serei uma mãe tão forte assim? Não, antes de viver um parto, passei por uma cesárea da minha primeira filha e pude sim construir uma maternidade ativa, consciente, empoderada por outros caminhos, principalmente buscando incansavelmente informação. Mas é inegável que um parto pode oferecer um vasto repertório para as vivências que se apresentam na maternidade.

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