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Quando o bebê não nasce vivo

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por: Daiana Almeida

No plano de parto escrevemos as nossas preferencias para o momento do nascimento do nosso filho. É uma forma de facilitar o atendimento dos nossos desejos num momento tão especial, compartilhando-os com as pessoas envolvidas, especialmente a equipe de assistência. No Brasil o plano de parto assume um papel ainda maior, de nos proteger de violência obstétrica. Então é comum escrevermos os nossos desejos para o parto, para o caso de necessitar de uma cesárea e para o pós-parto imediato.

Existem alguns planos de parto que contam, inclusive, com as opções da mãe para o caso do bebê não nascer vivo. Pausa para o choque de muitas pessoas, mas sim, isto acontece, bebês morrem dentro da barriga, e isto pode acontecer inclusive em gestações de baixo risco, embora seja pouquíssimo frequente. Em geral, planos de parto tão completos assim são exceções – é muito difícil pensar na perda quando estamos tão cheias de vida. Mas, mesmo em gestações de baixo risco, sem nenhum indicativo de intercorrência, existem mulheres que preferem descrever como preferem os procedimentos e como gostariam de ser tratada caso o óbito ocorra.

Hoje eu me arrependo de não ter abordado isso no meu plano de parto. Porque além dos motivos citados, o plano de parto ainda serve de instrumento de ativismo, levando conhecimento para equipes e instituições ainda não alinhadas com os fundamentos da humanização do nascimento. E a morte é um assunto que precisa ser tratado.

Hoje é Dia de Finados. Dia de celebrar os mortos. Dia em que estamos mais disponíveis para falar de um tema que geralmente é quase um tabu. Falar de morte é incômodo, nos coloca de frente com a noção dos limites da nossa própria vida, e isto é algo a que não estamos acostumados. O assunto mobiliza inúmeros sentimentos dolorosos, é o cessar de uma relação e de tudo o que ela nos proporcionava, é o fim de toda uma perspectiva de futuro, planos, sonhos que envolviam a outra pessoa. Então é compreensível que hoje seja um assunto renegado, apenas tangenciado quando há um acontecimento muito próximo e concreto.

Mas nem sempre foi assim. A morte já foi um assunto corriqueiro. No Ocidente, por exemplo, até a Idade Média, a morte era vivenciada dentro dos lares. Havia contato com este acontecimento desde criança, era um evento natural. Quando visitamos cidades medievais, estranhamos os cemitérios no centro da cidade, com muros baixos, fazendo parte da arquitetura urbana. Estranhamos porque hoje a morte ou é explorada de maneira quase caricatural por uma mídia sensacionalista, ou é encoberta, afastada do cotidiano. E esta mudança aconteceu a partir da ascensão do capitalismo, com o homem reduzido a mão de obra, as doenças sendo tratadas ao modelo das linhas de produção nos hospitais, que devolviam o homem sadio ao trabalho, evitando que as famílias também perdessem horas produtivas, cuidando dos doentes. Assim a morte foi institucionalizada. (1)

Dito isso, o que quero trazer hoje é a urgência de retomada da humanidade do processo de morrer, em especial falando da morte de bebês ainda dentro da barriga das suas mães.

Por tudo o que já expus, por serem casos excepcionais estatisticamente, e por ser o limite máximo com o qual nenhum profissional de saúde quer se deparar, as equipes de assistência não costumam tratar do assunto, a Tanatologia (ciência que trata da morte) não faz parte de muitas instituições de ensino da área de saúde, as pessoas ao redor também não sabem como agir, e o fenômeno segue sendo renegado. Mas isto também significa muitas vezes a renegação da experiência daquela família.

Pretendo que siga então com este texto um chamado para que naturalizemos o acontecimento. Torná-lo natural, longe de banalizá-lo, significa humanizá-lo, enxergar as pessoas envolvidas, valorizar a sua experiência, nos permitirmos sermos envolvidos por ela. Para isso precisamos falar do assunto. Aprender como lidar. Tratar abertamente, para que não tendamos a fugir e deixar uma família enlutada em desamparo.

Citarei então alguns pontos de reflexão sobre o papel dos profissionais de assistência e de outras pessoas que cercam a família nos casos de mortes neonatais.

1 – Sempre há o que fazer para ajudar

Ouvi no III Siaparto, numa mesa de Camila Goytacaz com Alexandre Coimbra falas incríveis sobre o luto materno. E algo que me fez refletir foi isso: quando dizemos que “não há o que fazer”, na verdade estamos fugindo da situação. Sempre há o que fazer para ajudar. E a ajuda tanto pode ser prática, como algumas coisas que citaremos abaixo, como pode ser apenas uma presença e escuta atenta. Isso já valoriza a experiência daquela mulher e daquela família que estão ainda num limbo, tentando elaborar os sentimentos, entender o que aconteceu. E isto leva ao segundo tópico.

2 – Comunique-se claramente e não subestime o entendimento da família

Provavelmente a equipe de saúde descobrirá antes da família sobre a morte do bebê durante a gestação ou no nascimento. Seja o ultrassonografista, seja o pre-natalista, é sempre uma comunicação difícil a ser feita. Mas “soltar a bomba e correr” definitivamente não é a forma adequada de se fazer isso, por mais que desejemos com todas as nossas forças não sermos nós o mensageiro da má-notícia. Ficar transferindo a responsabilidade entre profissionais como se fosse uma batata quente aumenta sobremaneira o sofrimento de quem está buscando uma definição. Existem inclusive protocolos que detalham o passo-a-passo, como o protocolo Spikes (2). Não deixe de ler esta revisão linkada, que detalha alguns protocolos. Então comunicar claramente o que está acontecendo, sem infantilizar ou subestimar a mulher e a família, é o primeiro passo de respeito à dor de quem está passando pela experiência da perda. Depois de comunicar, volte ao tópico 1 e ofereça sua presença e escuta atenta.

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3 – Apresente opções e respeite a autonomia de decisão da mulher

No caso do bebê morrer durante a gestação, ofereça à mulher as opções para o nascimento, apresente a ela todos os esclarecimentos e deixe que ela escolha livremente. Não tente definir o que seria melhor para ela. Cada pessoa tem uma história de vida, tem os seus limites e só ela poderá definir o que é melhor para si.

Após o nascimento, também há que serem apresentadas as opções de contato da mulher com o filho. Não tente “protegê-la” de uma experiência que para você seria insustentável. Ela quer segurar o bebê? Dê-lhe quanto tempo ela precisar. A elaboração do luto é muito importante para um processo saudável. Algumas mulheres querem segurar, vestir, registrar em foto e vídeo, guardar carimbo dos pezinhos e mãozinhas. Ofereça a ela naturalmente a opção de contato, mesmo que ela não solicite a priori. Como ja vimos, a morte é tabu, pode não lhe ocorrer esta necessidade, mas se apresentada de forma natural passa a ser uma opção viável para que ela avalie se quererá experienciar. Conheçam aqui um projeto lindo de registro das mães com seus bebês natimortos.

Como comentei antes, algumas mulheres podem inclusive já abordar no plano de parto seus desejos para o caso de óbito. Entenda que o assunto não precisa ser tabu e discuta da mesma forma que todos os outros tópicos.

Se você é amigo ou família, deixe que a mulher decida o que fazer com o enxoval, com o quartinho montado. Nunca, apenas nunca tome providências não solicitadas pela família, como esconder o enxoval ou desmontar o quarto para proteger a mulher do contato com as lembranças. Ela pode escolher lidar com estas lembranças como parte da elaboração do seu luto.

4 – Valide a experiência de perder um filho

Você não diria para uma mãe que acabou de perder um filho crescido que ela poderá ter outro, como se isso fosse amenizar o seu sofrimento. Filhos não são substituíveis. E aquele não era só um feto, era o filho daquela mulher. Já havia uma relação estabelecida, haviam sonhos, expectativas, planos de futuro. Então acolha sem apresentar “soluções” para o sofrimento. Caberá apenas à família decidir quando e se irá ter outros filhos.

5 – Lembre que a mulher estará passando por um puerpério sem o bebê nos braços

Dependendo do estágio da gestação, a mulher irá produzir leite. Sim, isto deve ser lembrado. E não haverá o seu filho para mamar. Este é um ponto muito sensível, que deverá ser tratado com toda a delicadeza necessária. À mulher deverão ser dadas todas as opções, mais uma vez, e retomado o tópico 3. A mulher irá quer tomar remédio para secar o leite? Irá fazer doação? Só ela pode decidir com as informações recebidas, e não com sugestões do que você acha que seria melhor.

Ela estará passando pelo puerpério, que já é uma fase muito desafiadora para qualquer mulher, com todas as mudanças hormonais e de papel na vida, com a diferença de que ela não terá o acalanto do bebê nos braços. Todo o suporte prático e emocional deverá estar disponível para ela. Se você é profissional da assistência, investigue a rede de apoio da família. Caso não haja nenhuma, ofereça opções. Se você faz parte da rede de apoio, ponha-se à disposição da família para auxiliar nas questões práticas e ofereça sempre a escuta empática e o ombro amigo.

E além de tudo, também muito importante, busque o auto-cuidado. Compartilhe a sua própria dor com companheiros confiáveis ou com a sua equipe de trabalho. Lidar com perda e morte pode se tornar mais natural e humanizado, mas nunca será fácil para ninguém.

Referências:
1 Ariès P. História da morte no ocidente. Rio de Janeiro: Ediouro; 2003.

2 Pereira ATG, Fortes IFL, Mendes JMG. Comunicação de más notícias: revisão sistemática da literatura. Rev enferm UFPE. 2013;7(1):227-35. Disponível em: http://www.revista.ufpe.br/revistaenfermagem/index.php/revista/article/download/3254/5499, acessado em 31/10/2016.

Referências complementares:
Cartilha de Orientação ao Luto Materno

Do Luto à Luta: Apoio à Perda Gestacional e Neonatal

Temos que Falar Sobre Isso

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