Relatos

Paula – Nascimento de Arthur

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A melhor maneira de iniciar o relato da minha experiência de parto é dizer que o meu parto começou de um outro nascimento: o da ideia de parir em casa. Ao longo da gestação, eu, que inicialmente só pensava na possibilidade de ter uma cesárea, fui descobrindo o movimento pela humanização do nascimento e passei a lentamente nutrir em mim o desejo de ver o meu filho chegar a esse mundo de um jeito sensato, humano, respeitoso e vantajoso para a saúde dele. Do parto cesárea, passei para o parto normal hospitalar com analgesia; do parto normal hospitalar, mudei para o parto normal hospitalar sem intervenções; por último, acabei optando pelo parto domiciliar. Decidi, consciente e informada, pelo parto domiciliar pouco antes de completar 30 semanas de gestação. As semanas seguintes foram direcionadas para a busca de profissionais que pudessem assistir ao parto, mas nenhuma das duas médicas que atendem parto domiciliar em Salvador estava disponível no período da minha DPP. A 35 semanas, finalmente o parto domiciliar estava começando a se estruturar: eu havia recebido a indicação de uma enfermeira que poderia assistir ao parto, bastando apenas encontrar um obstetra que pudesse ser um plano B, assumindo uma eventual transferência para o hospital em caso de necessidade. Apesar disso, eu continuava ansiosa por definir como o parto aconteceria finalmente. Juntava-se a esta uma ansiedade de outra natureza: estávamos no mês de Novembro, mês do aniversário de nascimento e do aniversário de morte da minha mãe, uma pessoa de presença muito forte na minha vida, até mesmo durante a gestação, quando eu tive sonhos frequentes e muito intensos com ela. Neste mês, a minha família sempre entra em um “modo luto”: as pessoas ficam mais contritas, não comentam as datas, se falam menos, ficam mais tristes e tensas, aborrecendo-se por qualquer motivo.

Nesse contexto, chegamos à madrugada do dia 16 de Novembro, quando eu estava com 36 semanas e 2 dias de gestação. Nesta noite, acordei para ir ao banheiro e notei que havia uma secreção de cor marrom escura na minha calcinha. Fiquei um pouco assustada por esta secreção surgir assim, tão ao final da gravidez, e corri para o Google na esperança de encontrar alguma informação que me tranquilizasse. Mas o que li só me assustou mais: sangramento, descolamento de placenta, sofrimento fetal, aborto, trabalho de parto prematuro. Como eu não estava sentindo nenhum tipo de mal estar, respirei fundo e me forcei a voltar a dormir, eu poderia esperar até amanhecer para observar o que aconteceria. Às 05h30, acordei sentindo dores leves na região do útero, dores que me lembravam uma cólica menstrual: latejante e intermitente. Achei que eu tivesse dormido forçando a barriga em cima do colchão, fiquei de barriga para cima e tentei voltar a dormir. Mas a dorzinha que ia e voltava parecia estar mais frequente do que o normal e eu comecei a anotar a hora em que ela vinha e quanto tempo durava. Elas vinham a cada 3 ou 4 minutos e duravam entre 10 e 20 segundos. Por volta das 08 da manhã, as dores ficaram mais intensas e duravam mais tempo. Um pouco perdida por não ter uma GO me acompanhando oficialmente, procurei a Anne, minha professora de yoga para gestantes, falando do que estava sentindo e pedindo alguma orientação de uma pessoa que convivia com gestantes o tempo todo. Conversamos um pouco por telefone e ela me sugeriu que ligasse para a Dra. Marilena, com quem eu tinha me consultado alguns dias antes, para pedir orientação efetiva. Em contato com a Dra. Marilena, fui orientada a continuar acompanhando o ritmo das contrações e voltar a procurá-la caso eu chegasse a 4 contrações de intensidade moderada em 10 minutos. Ela disse que existia, sim, a possibilidade de eu estar entrando em trabalho de parto e que, se essa suspeita fosse confirmada, o meu parto não poderia ser domiciliar porque o Arthur talvez chegasse com o corpo ainda não maduro e precisasse de auxílio médico. Desliguei o telefone e, deitada na cama como estava, pus as duas mãos na barriga e, enquanto fazia um carinho no meu filho, caí numa gargalhada gostosa e feliz. “Será que o Arthur já chega? Será que o parto será hoje?”, eu me perguntava. Não me sentia assustada com a possível iminência do parto nem frustrada com a possibilidade de parir em um hospital. Ao longo da vivência de todas as mudanças e experiências que acompanham a gestação, o parto tinha-se tornado um evento grandioso, expressão da mudança que tinha acontecido dentro de mim, das novas possibilidades que contemplei, das novas capacidades que descobri. Embora estivesse inevitavelmente relacionado ao nascimento do meu filho, o parto já era, por si só, um evento com significado próprio e eu ansiava por vivê-lo tanto quanto desejava conhecer o rostinho do meu filhote. Sim, sonhei com um parto em casa, perdi as contas de quantas vezes me peguei pensando sobre como seria o grande dia. Mas eu confiava na opinião médica da GO com quem conversei, sabia que ela respeitaria a minha decisão e os direitos do Arthur por um nascimento digno. Se ela tinha me alertado para a necessidade de um parto hospitalar, eu acreditava nela. Gargalhei em êxtase pela alegria de vislumbrar duas possibilidades tão grandiosas, o parto e o nascimento do Arthur (coisas distintas, sim!), logo ali, na esquina do meu dia.

Levantei da cama e, enquanto as dores me permitiriam, tratei de ir lavar as roupas do Arthur, limpar o seu quartinho, arrumar a mala para a ida ao hospital, ligar para que a minha irmã viesse ficar comigo, ligar para a madrinha do Arthur (que mora em outro Estado), ligar para o pai do Arthur e deixá-los todos alertas, pois o meu bebê poderia chegar naquele mesmo final de semana. As contrações aumentaram de frequência por volta das 10h. Ainda não eram uma dor real, mas eram perceptíveis e um pouco desconfortáveis. Confesso que, embora eu reclamasse a cada pontada no útero, por dentro eu sentia felicidade e só queria mesmo chamar a atenção para os sentimentos maravilhosos que me tomavam cada vez que a dorzinha vinha. Liguei novamente para a Dra. Marilena, que encaminhou uma enfermeira para me examinar em casa e verificar se eu efetivamente estava em trabalho de parto. Nesse ponto, perdida entre afazeres burocráticos e, ao mesmo tempo, ansiosa por ouvir o “veredito” da enfermeira que estava a caminho, acho que me desconectei dos sentimentos de parir, saí do foco interno para viver as demandas do exterior. As contrações diminuíram de ritmo até cessarem. Quando a Anne e a enfermeira Gertrudes chegaram, eu tinha a sensação de ter retrocedido ao estágio em que estava às 05h da manhã. Fiquei pensando se não teria tudo sido um alarme falso.

Aos poucos, à medida que eu conversava sobre o que tinha sentido durante a manhã e falava sobre a gestação e as mudanças que eu tinha sentido em mim durante o processo gestacional, as contrações voltaram, mas bem mais breves e menos frequentes. Por volta das 16h00, a Gertrudes me examinou e concluiu: sim, existia uma pequena possibilidade de eu parir naquele mesmo dia, mas era bem mais provável que ainda demorasse alguns dias, talvez até mais de uma semana. De fato, o tampão mucoso tinha começado a se desfazer e o colo do útero estava bem macio, mas não havia nenhum indício de fase ativa de TP, nem dilatação. Ela propôs, então, voltar a me visitar na semana seguinte. Quando ela e Anne já estavam de saída, tive uma contração consideravelmente mais forte, senti até vontade de gritar. Pedi, então, que elas ficassem só mais um pouco para ver no que aquilo ia dar. Daí em diante, as contrações foram ficando cada vez mais fortes. Lembro de estar deitada no sofá da sala conversando com Anne e Gertrudes sobre o falecimento da minha mãe e o fim do meu casamento e não encontrar mais posição que me aliviasse a dor das contrações. Eu variava entre ficar sentada no sofá, deitada de lado, sentada na bola e em pé caminhando, mas a dor inevitavelmente me alcançava. Caminhar, receber massagens na lombar e vocalizar a dor que eu sentia realmente me ajudaram a passar pelas contrações de forma mais confortável, mas cheguei a um momento em que preferi ficar sozinha. Fui para o meu quarto e fiquei ouvindo músicas de um CD que eu tinha gravado especialmente para o trabalho de parto, músicas que falavam sobre mudanças e encontros e coragem. Deitei na cama e me pus a fazer carinho na barriga, conversar com o Arthur e cantar pra ele (“abre os teus armários que eu estou a te esperar para ver deitar o sol sobre os teus braços castos / cobre a culpa vã, até amanhã eu vou ficar pra fazer do teu sorriso um abrigo”). Me permiti deixar que as coisas caminhassem como deveriam ser, desisti do controle que sempre precisei ter sobre tudo, me entreguei inteira. E senti paz, muita paz.

As contrações ficavam cada vez mais fortes e frequentes, ao ponto de eu não mais conseguir ficar deitada. Caminhava pelo quarto e passava por elas de pé, apoiada na janela, pois a dor era mais suportável para mim assim. E eu gritava, gritava muito. E, a cada grito, lembrava dos gritos de dor da minha mãe nas suas últimas semanas de vida. Olhava para a foto dela e lembrava também do último sonho que tive com ela, uma semana antes, em que ela me dizia que cuidaria de mim sempre, mas que agora era a minha hora, não mais a dela.

Às 19h, Gertrudes pediu para me examinar novamente e ver em que estágio do TP eu estava. Ninguém comentou nada, mas estava claro para todos que estavam na minha casa (Marta – minha irmã -, Gertrudes, Anne e eu) que eu estava em franco trabalho de parto. Enquanto Gertrudes me examinava, eu olhava para o rosto dela, tentando ler alguma reação e compreender o que estava acontecendo. Depois de algum tempo me examinando (que, para mim, pareceu uma eternidade), ela ficou séria e disse “meu Deus, eu não estou acreditando! Menina, você está com 9cm de dilatação! Pro hospital agora!”. Ouvi isso e fiquei em choque por alguns segundos. Tinha chegado a hora! Tinha chegado a hora! Seria hoje!!! Lembro de ter deitado de novo na cama e chorado. De emoção e de alegria e por enxergar a magnitude da experiência pela qual eu estava passando. Abracei a Anne. O meu momento (e o do Arthur) não estava chegando. Nós já estávamos nele.

A transferência para o hospital foi muito rápida. Quando cheguei à recepção, o recepcionista insistiu para que eu fosse transferida até a sala de parto na cadeira de rodas, mas só de pensar em ficar sentada a minha dor aumentava. Argumentei até o recepcionista desistir de me fazer sentar naquela cadeira e, por menor que esse detalhe pareça, foi muito importante pra mim chegar ao hospital e fazer prevalecer o meu conforto e bem-estar em detrimento de protocolos que não representavam maior segurança nem saúde efetiva para mim. Pouco tempo depois, chegou a Dra. Marilena, que por sorte (ou destino) não estava realizando nenhum parto naquele momento e pôde me atender.

Na sala de parto, não tive tempo para tomar um banho quente ou fazer exercícios na bola, pois foi tudo muito rápido. A dor me parecia perceptivelmente maior no hospital. Eu não me sentia incomodada pelos diversos profissionais entrando e saindo na sala, não sentia vergonha de gritar pro hospital inteiro me ouvir, não senti vergonha do meu corpo exposto a tantos desconhecidos. Quando as contrações vinham, eu só desejava que elas acabassem logo ; nos intervalos, eu só queria descansar e ficar quietinha. Mudei de posição algumas vezes, fiquei sentada na maca, depois de quatro em cima dela, mas só consegui me acomodar de verdade ao ficar de cócoras.

Nesse ponto, a dor era muito intensa e eu pedi pela anestesia. Eu estava muito assustada sem saber quanto tempo aquilo ainda duraria e comecei a pensar muito em como eu ainda pensava ter algumas semanas à frente para me preparar para as dores do trabalho de parto e parto. Era a Paula antiga querendo encontrar controle onde não tinha. Por sorte, as pessoas que estavam comigo na sala de parto (Marilena e Anne) sabiam os motivos da minha decisão pela ausência de anestesia. Para mim, mãe solteira de primeira viagem passando por uma gravidez não-planejada, era uma questão de dizer “eu consigo, eu dou conta, eu vou junto com o Arthur, a gente consegue”. Marilena me explicou como o TP já estava muito avançado e uma anestesia provavelmente desaceleraria o processo. Anne segurou a minha mão e me lembrou dos meus motivos, além de ter narrado um pouco da sua história de parto e da história de parto da Daniela Leal, duas histórias que me inspiraram muito durante a minha gestação. O tempo foi passando, as contrações iam e vinham e a dor continuava muito intensa.

Desejei ter tido um pouco mais de tempo para organizar a ida ao hospital e ter levado alguma música para me relaxar e me reconectar com a minha partolândia. Sem a música e naquele ambiente hospitalar, eu já não me sentia tão confortável e em paz. Resolvi cantar dentro da minha cabeça mesmo. Comecei com uma música do Phillip Phillips chamada Home, pois desde a primeira vez que a ouvi pensei no Arthur. Ela diz algo como: “segure-se em mim enquanto caminhamos por esta estrada desconhecida e saiba que você não está sozinho, pois eu farei deste lugar o nosso lar”. Comecei a cantá-la pro Arthur. E foi aí que eu percebi: nunca fui eu cantando essa música pra ele… o tempo todo era ele cantando essa música pra mim, me acalentando, acolhendo os meus medos e as minhas ansiedades. Aquele bebê de só 36 semanas estava pronto e mandou dizer que estava. Ele estava conduzindo todo o processo e eu só precisava me deixar levar, deixar que ele assumisse o rumo das coisas. Ele sabia o que estava fazendo. E, se ele estava pronto, eu estava também.

Ter percebido que era o meu filho quem tinha as rédeas da situação mudou tudo. De repente, a dor ganhou sentido. Sim, ainda era forte e dolorida, mas ela vinha e passava e eu continuava aguentando, me segurando no meu filho enquanto caminhávamos juntos por essa estrada desconhecida, a primeira de muitas por onde ainda passaremos. O tom do meu grito mudou e a vontade de empurrar chegou. A minha irmã me contou depois do parto que eu chamei pela minha mãe. Lembro de, num dado momento, ter aberto os olhos e ter visto a Marilena sentada num banquinho no canto do quarto, disponível e à espera do que fosse acontecer. E me senti ainda mais empoderada porque percebi que aquele processo era do meu filho e meu. Só nosso.

A bolsa rompeu poucos minutos antes de o Arthur nascer. Ele veio ao mundo às 21h05 de 16 de novembro de 2012. Ouvir o chorinho do meu filho e tê-lo em meus braços mamando enquanto ainda estávamos ligados pelo cordão umbilical foi um momento precioso. Não cansava de olhar para o meu pequenino e lhe dizer que faríamos desse mundo a nossa casa. Os procedimentos que precisavam ser feitos foram realizados com ele no meu braço. E ele era perfeito, não houve nenhuma complicação por conta de ele ser prematuro. Gosto de pensar que ele veio antes porque estava pronto pra vir. Fomos juntos para o quarto e temos estado juntos desde então, eu aprendendo com ele mais do que lhe ensinando.

Passar pelo parto da forma como ele aconteceu foi uma redenção para mim. De uma mulher com um lado masculino e centralizador muito marcante, me reencontrei com o meu feminino e desisti de tentar ter controle sobre tudo. Me permiti viver a fisiologia do parto com todos os seus sábios hormônios e me senti bicho, mulher completa e poderosa quando percebi que eu tinha conseguido junto com o meu filho passar por uma experiência de que todos achavam que eu desistiria. “Você não vai aguentar a dor”, ouvi de muita gente. “Pra que se submeter a isso se a medicina pode fazer tudo ser mais confortável?”, ouvi de outras tantas pessoas. A elas respondo: passei por isso para assegurar ao meu filho que ele chegaria sendo respeitado e considerado, mas passei por isso também por mim. Com a minha escolha, abri os braços e a alma para acolher um fato que a vida me trouxe, a maternidade, para me tornar sujeito da minha mudança e não apenas passar por ela como figurante na minha própria história.

Sei que sou uma outra mulher agora. Sei que sou outra mãe, menos medrosa e mais segura de que o meu instinto me orientará sobre como cuidar do Arthur. E isso transparece para os outros, noto nos meus familiares que antes me viam como uma garotinha inexperiente e hoje respeitam o lugar de mãe que agora ocupo. Sei que o meu filho será outro bebê, outra criança, outra pessoa, pois nasceu em um ambiente que, além de cheio de amor, estava também permeado por consciência, informação e respeito. Sei que darei outra criação a ele, pois, depois de desconstruir o paradigma do nascimento, ficou muito mais fácil desconstruir outros paradigmas sobre criação, educação, saúde.

Não passei por tudo isso sozinha e não me cansarei nunca de agradecer a algumas pessoas muito especiais por suas contribuições para a minha mudança. A Alexandre Amaral, por ter aberto as portas do nascimento humanizado para mim e me convidado a entrar; a Daniela Leal, por ter sido fonte de tantas informações e inspiração para a minha própria transformação; a Anne Sobotta, também fonte de inspiração e informação, uma alma companheira que pôde participar comigo do meu parto e cuidar de mim; a Marilena Pereira, pela disponibilidade, pelo olhar atento, pelo coração acolhedor; a Gertrudes, por ter se disposto a participar do meu parto e por ter sido tão disponível; aos amigos do Roda Viva, pelo espaço em que compartilhamos nossas mudanças, nossos medos, nossos aprendizados, nossas dúvidas e também nossas certezas; a Marta, minha irmã, por ter aberto mão das suas convicções sobre parto para me acompanhar discreta, na porta do quarto, uma presença que notei o tempo inteiro; a Arianne, madrinha do meu filho, por ter vivido a gestação junto comigo e por ter aberto a cabeça para também aprender sobre humanização do nascimento; a Walkyria, minha mãe, fonte da minha força, inspiração dos valores que desejo transmitir ao Arthur. Obrigada, obrigada sempre.

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