Relatos

Mi e Leo – Nascimento de Flora

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Ela chegou às 2h37min da madrugada de um Domingo, veio sem data ou hora marcada, sem compromissos com agendas. Chegou como tinha que ser. Flora, cria da natureza. Veio sem pressa, sem nenhuma pressa… Após um trabalho de parto de aproximadamente 33 horas, cujos primeiros sinais se manifestaram na madrugada de quinta para sexta-feira.

Desde quando soubemos da sua chegada, desejávamos que Flora viesse por meio de um parto normal, sem conhecer as derivações dessa nossa vontade. Eis que surge uma pessoa mais que fundamental para nos direcionar de vez para aquilo que queríamos. Maíra Lopes, nossa amiga, nos apresentou o conceito de parto natural humanizado. A partir daí, começou uma busca pessoal por informações e conhecimentos sobre o universo do nascer. Ainda por indicação de Maíra, fomos levados a conhecer e frequentar assiduamente um grupo que promove debates sobre a humanização do parto, o Coaracy. Assim, as noites de quarta-feira tornaram-se sagradas e foram preenchidas com inúmeras ideias, relatos, indicações… E encontros. Logo na primeira roda de conversa, o tema foi sobre o CPN – Centro de Parto Natural Mansão do Caminho. Até então, nosso plano era fazer o acompanhamento da gestação com um médico cesarista, que, desde o início, deixou claro que não “faz” mais parto normal, e ter nosso bebê com os plantonistas do Hospital Português, pois era o que o nosso plano de saúde permitia. Não sabíamos ainda o que o SUS poderia nos proporcionar.

Nesta mesma roda conhecemos aquela, que, nem imaginávamos, seria Vital neste processo: nossa doula, Lara. A doula é uma profissional que orienta as gestantes das mais variadas formas ao longo da gestação e proporciona apoio físico e emocional durante os procedimentos ao longo do parto. Ela foi e tem sido bem mais que isso! Tinha de ser ela: a falante Lara Vital.
Ainda por meio da roda, nos apropriamos do vocabulário técnico sobre o parto. Termos importantes foram ganhando significados: ocitocina sintética, peridural, episiotomia, tricotomia… O que não queríamos, já sabíamos de cor. O que queríamos ficou em aberto até a última semana: ter o parto na CPN ou domiciliar. Optamos pelo primeiro devido à falta de disponibilidade da profissional (acionada já em cima da hora!) que desejávamos que estivesse conosco nessa hora tão especial.

E, dessa maneira, fomos, “sem fastio” e “com fome de tudo”, nos apropriando das informações que se multiplicavam diante de nossa busca, para que na hora do parto tudo ocorresse da melhor forma possível.

E o dia chegou. Era uma sexta, um dia que reservamos para a tranqüilidade e buscamos um refúgio para relaxar. Nós, nossa doula e sua filha pegamos o carro e depois de 2 horas de estrada chegamos a Imbassaí. Aproveitamos bem o dia. Retornamos e, ao chegarmos em casa, a dor que veio durante a madrugada ainda de forma sutil, e que se disfarçou ao longo do dia, se intensificou e constatamos que a hora estava se aproximando. Ao perceber que estávamos no início do trabalho de parto, nossa doula nos orientou a dormir, mas as contrações e a ansiedade não permitiram a aproximação do sono. Passamos a noite em claro à espera de Flora. O dia de Sábado raiou e as contrações continuaram pela manhã quando conseguimos tirar umas sonecas nos intervalos entre elas. Pela tarde, nossa doula chegou em casa e contamos a duração e os intervalos das contrações. Enquanto isso, lanchamos, almoçamos, conversamos, subimos e descemos a escada de nossa casa… fizemos tudo normalmente.
Até que a regularidade das 3 contrações a cada dez minutos se estendeu por um período razoável. Decidimos ir para o CPN no momento que Itamar Vieira Junior lembrou que na quinta houve uma virada de lua. E diz a sabedoria popular que, quando a virada de Lua ocorre, os bebês se apressam a nascer. Se é verdade ou não, não sabemos, mas nossa Doula Lara ligou para o CPN e foi informada de que havia apenas um quarto vago. Pegamos o carro, ligamos o som e partimos para a Mansão do Caminho. No trajeto de Mussurunga até Pau da Lima, ouvindo Coldplay, cantarolávamos “Nobody said it was easy”, verso da música “The Scientist”. Chris Martin estava nos informando o que estava sendo e como continuaria a ser nosso parto. Chegando lá, soubemos que a maternidade de referência do CPN, que é a Albert Sabin, acabara de entrar em greve. Isso impossibilitaria novas admissões no CPN, pois, se houvesse a necessidade de qualquer intervenção de emergência, não haveria a possibilidade de transferência. Mesmo assim fomos atendidos numa espécie de triagem. A enfermeira constatou por volta das 20h:
– Vocês não podem sair daqui… oito centímetros de dilatação, ela já está parindo. – Falou Gertrudes para arrancar sorrisos largos e revigorantes para enfrentarmos as últimas fases do parto.
Ao entrar no quarto continuamos a lançar mão de técnicas não farmacológicas para alívio da dor. Ficávamos entre o chuveiro, o cavalinho, a poltrona do papai, a banqueta. O parto era compartilhado entre nós quatro (o casal, Flora e nossa doula) e foi assim durante aproximadamente 90% que estivemos lá. As enfermeiras Gertrudes e Cris, e a técnica Dijean entraram nos momentos de real necessidade como na hora do nascimento. As etapas não paravam progredir desde as contrações iniciais. Com 9cm de dilatação a bolsa rompeu na poltrona do papai enquanto chamávamos por Flora e nossa doula estava bebendo água. Esse momento renovou as forças para concluir o parto. Realmente não foi fácil. A fase expulsiva estava chegando após um cansaço enorme e, com o aumento da intensidade das contrações, e consequentemente da dor, veio a vontade de fazer força para ver aflorar nossa filha. Após coroar e observarmos suas idas e vindas entre o espaço uterino e o quarto, a Criança de Domingo chegou como haviam anunciado os anjos a Alceu: numa manhã dominical. O momento do nascimento é transcendental, indescritível. Os suspiros surgem ao lembrar. Conseguimos, do jeito que planejamos. Flora nasceu com saúde e foi imediatamente para os braços da mãe, enquanto o papai cortava o cordão e posteriormente avisava para a vovó Tereza e vô Joel da chegada da netinha. Depois de verificado o peso, foi para os braços do pai e por lá também ficou por um bom tempo. Durante mais uma noite, não dormimos de tamanha felicidade com a chegada de nossa filha, que da natureza tomou emprestado o nome. O parto não poderia ser de outro jeito, natural humanizado, para a chegada de Flora de Sousa Pessoa, “uma das coisas mais lindas da natureza e da civilização”.

E pensar que tudo começou por causa de um berço deixado como herança pelos titios Fábio Vieira e Eveline Vieira na nossa nova residência… Missão dada é missão cumprida!

“Talvez existam coisas que nós não entendamos, mas mistérios existem e por isso
precisamos ter fé, pois às vezes hospedamos anjos sem saber…
Anjos cuidam, buscam, amam,
ouvem, ajudam, protegem, esperam…”

Agradecemos a todos os titios e titias, vovôs e vovós, de sangue ou de coração que torceram, esperaram, oraram e vibraram junto conosco e foram anjos nessa caminhada.

Relato do
Papai Leo Pessoa e da
Mamãe Milena Farias

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