Marianna – Nascimento de Maria

Você já completou mais de um mês de vida minha filha! E você ainda nem sabe o quanto já nos ensinou e nos transformou através da experiência incrível de receber você no mundo.
Pensávamos que uma gravidez e parto, sendo de baixo risco, seriam momentos muitos simples e deliciosos de se viver… e foi, sua gravidez inteira foi muito tranquila, sem complicações, sem nenhuma evidência de que nada sairia do nosso controle e do nosso tão sonhado e preparado parto domiciliar.
Sua mãe, que estuda, trabalha e vive imersa no ambiente de parto e seu pai, que se tornou um profundo e intenso admirador do assunto, decidiram e esperavam ansiosamente por receber você na nossa casa. Estava tudo preparado para isso, a nossa casa estava pronta, nossos corações só pensavam nisso, a logística estava toda montada, escolhemos as pessoas mais lindas que conhecemos para compor a “nossa equipe” de espera da sua chegada, vibramos com cada sinal de que estava cada vez mais perto…
E esses sinais começaram na madrugada de sexta para sábado, quando sua mãe começou a sentir algumas contrações, já ritmadas, mas espassadas e uma dor absolutamente suportável. Decidi avisar a nossa doula e a nossa enfermeira obstetra – mais do que isso, nossas amigas tão queridas – e na mesma hora, elas chegaram ao nosso ninho. E nesse ninho ficamos todos acarinhando você desde então, sorrindo, vibrando, comemorando cada sinal, cada detalhe: “tu vens, tu vens… Eu já escuto os teus sinais”. Elas chegaram para ficar, na nossa casa, no nosso parto e nas nossas vidas, um dia você vai entender, o que seria de nós sem elas?
Ficamos confinados em segredo na nossa casa, eu, seu pai, sua madrinha, nossa enfermeira, nossa doula e nossa amiga-vizinha-pediatra maravilhosa que entrava e saía e nos passava tanto conforto. Era segredo, ninguém mais além das outras pessoas da equipe sabia que nossa aventura já havia começado.
E assim ficamos, no sábado e no domingo, seu pai cozinhou para nós, sua madrinha deu todo suporte, nossa doula cuidou de nós com taaaanto amor e nossa enfermeira além de cuidar da gente, tornou nossa casa tão leve que éramos só sorrisos a maior parte do tempo. Fomos muito felizes durante aquele final de semana. E quando sua mãe viu a meia noite de domingo se aproximar ela não escondeu a felicidade da possibilidade de você nascer no dia de yemanjá, meu amor!
Chegamos ao dia dois de fevereiro com dores forte, contrações ritmadas e intensas e a voz de Gertrudes: “é hoje!”. Passamos a madrugada acordados e vimos o dia nascer, os primeiros raios de sol e os fogos da praia do rio vermelho anunciando a festa da rainha do mar. Durante a manhã já era hora de ligar para nossa obstetra e nossa fotógrafa, e enquanto isso seu pai e sua madrinha enchiam a piscina para o parto e as músicas que escolhemos para a sua chegada não paravam de tocar. Era muita dor, era muito intenso e seu pai não desgrudou de nós nem por um segundo durante todo o tempo que você mandava os seus sinais.
Pouco antes da nossa médica chegar, foi identificado um episódio de taquicardia sua na minha barriga e já percebemos que aquela dor entre as contrações não deixava sequer a gente respirar direito. Acho que naquele momento ali algumas pessoas já imaginavam que algo poderia ter saído do nosso planejado e com a chegada de Marilena decidimos ir ao hospital garantir que estava tudo bem comigo e com você. Até então seria apenas uma cardiotocografia, para saber como você estava, mas, após a ótima notícia que estava tudo bem com você veio junto uma grande surpresa: sua mãe estava com um leucograma alto, ainda sem explicação. Então, nosso tão sonhado e planejado parto domiciliar havia ficado para trás e nossa realidade passou a ser o parto normal hospitalar, já que sua mãe precisou iniciar antibioticoterapia logo naquele momento. Chegamos ao quarto com o trabalho de parto a todo vapor e com toda sutileza do mundo nós ficamos sabendo por nossa médica que a hipótese seria de uma corioamnionite, já que outros focos haviam sido descartados, mas também não percebemos nenhuma perda de líquido amniótico… Mas estávamos lidando com aquela possibilidade e tratando como se assim fosse. Receber essa notícia foi duro demais, minha filha. Saber que havíamos saído do baixo risco e imaginar que você pudesse correr qualquer tipo de risco era duro demais, difícil demais, inesperado demais naquele momento. Confesso que desejei que aquela dor acabasse, hoje, entendo que além da dor física, a dor emocional era ainda mais intensa. Mas são nos momentos mais difíceis que as melhores surpresas acontecem… E o que não faltou ali foi suporte, de todos os lados, pois toda nossa equipe do coração que saiu da nossa casa e foi junto conosco para o hospital, não saiu de perto de nós nem por um momento.
E assim o dia dois de fevereiro foi passando, em meio ao medo, a ansiedade, ao inesperado misturado com um amor imenso e com a confiança e paciência de todos que estavam ali. Paciência sim, pois você só foi chegar na manhã do dia três, através das mãos do seu pai, que te recebeu e te entregou para mim, tão linda, tão forte e tão cabeluda. Sim, esse sonho foi realizado, seu pai te recebeu no mundo como ele sempre quis, como nós sempre imaginamos. Foram quatro intensos dias de uma mistura de sentimentos indescritível, foram mais de 24 horas de dor intensa, de um parto que saiu completamente do planejado e fugiu totalmente do script, mas que nos ensinou minha filha, coisas que jamais imaginaríamos aprender. Vivemos e confirmamos que parto é transformação sim, que a vida é incontrolável sim, que nós somos sempre aprendizes das situações por mais que não seja possível compreender no exato momento, mas o resultado do que nos move é sempre maior. Ouvi de Carol que em algum momento eu parecia ter me transformado em uma fênix, aquela que renasce das cinzas, talvez tenha sido exatamente assim, quando entendi que para você chegar, mais uma vez, só dependia de mim. Mas, mais uma vez eu pergunto, o que seria de nós sem aquelas pessoas que estavam ali? Seu pai foi uma fortaleza, um homem parindo junto com sua mulher, com os olhos fixos e as mãos firmes o tempo inteiro e, quando eu ameaçava desmoronar, ele tratava de juntar os caquinhos e junto com a equipe da gente me lembrar que eu era capaz. Depois eu entendi que a dor entre as contrações era característica do quadro que eu estava, mas naquele momento foi tão desafiador…
E como se não bastasse minha filha, ainda precisamos cumprir o protocolo da instituição que estávamos e você precisou fazer um tratamento profilático que também não imaginávamos e nem estávamos preparados. Mas, mais uma vez nos descobrimos fortes, e mais do que isso, nos descobrimos. Eu, você e seu pai, nós três, vivendo em uma verdadeira fusão por quatro longos dias longe da nossa casa que nem imaginávamos ter que sair dela. Mais uma vez aprendemos que a vida não nos dá roteiro, nos mostra alguns caminhos e algumas possibilidades de escolha diante das situações e naquela ali, escolhemos viver nós três, obrigados a cumprir um protocolo, mas adaptando a situação da forma como havíamos escolhido viver, com muito colo, muito amor e cumplicidade e aleitamento materno exclusivo desde sua primeira alimentação. Hoje, trinta dias depois, ainda juntamos algumas peças para nos ajudar a compreender toda experiência que vivemos, mas além disso, nos tornamos extremamente agradecidos por todo aprendizado que seu nascimento nos gerou e nos transforma até hoje. Agora, eu posso compreender melhor a escolha que eu fiz profissionalmente e a dimensão que esse trabalho tem na vida de uma mulher. Se eu puder dar um conselho a alguém eu sempre vou falar da importância de se ter uma doula, uma fotógrafa e uma equipe de confiança. Agradecer cada uma delas, nunca vai ser o suficiente.
E hoje, recebemos as fotos da sua chegada e pudemos reviver tão intensamente alguns sentimentos e outras situações que a emoção daquele dia nem nos permitia lembrar. Eu nunca me senti tão frágil e tão forte ao mesmo tempo. Ver essas fotos transformou a memória que nós tínhamos daquele dia, nos ilustrou em cores e perfis o amor que prevaleceu em todos os momentos. Só se veem lágrimas, abraços, beijos, sorrisos, mãos dadas e uma cumplicidade enorme! Hoje, mais uma vez, eu agradeço. Agradeço pelo parto que não tivemos, agradeço pelo parto que recebemos e agradeço por ter sido por você e com você toda essa jornada e por você ter chegado para nos transformar e ser o melhor presente das nossas vidas.
Te amo, minha filha.

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