Luciana – Nascimento de Flora

Começo este documento dizendo como é difícil uma gestante parir de parto normal um bebê no Brasil. E isto não é nenhuma novidade. Só basta ver todas as estatísticas.
Assim que soube que estava grávida procurei o Dr. Eduardo Ribeiro Santana, da clínica de Porto Sauipe, que ao ser questionado por mim se fazia parto normal me perguntou se eu era índia. E continuou dizendo que só trabalhava com cesárea pois não tinha tempo a perder.
Claro que nunca mais voltei lá.
Percebi aí como seria difícil realizar meu desejo.
Mas me empenhei nos 9 meses de gestação procurando informação, equipe humanizada, participando de rodas de parto.
Com 40 semanas e alguns dias parecia que chegava a hora. Após alguns dias de pródomos constantes, o famoso tampão saiu. E as contrações começaram apenas 2 horas depois e vinham cada vez mais ritmadas e com maior força.
Liguei para doula, enfermeira obstétrica, fotógrafa…foram 9 meses de preparação e informação para o sonhado parto natural humanizado.
Montamos a piscina na sala, caminhamos, tomamos banho de lagoa. Meus pais, marido, cachorros e gatos participando deste momento tão especial.
Hora de ir para casa de parto. Fui admitida e fomos todas para o quarto. Meus pais ansiosos aguardando na sala de espera.
Meu marido me surpreendeu e foi meu grande doulo em todos os momentos. Nos momentos de dores mais intensas ele me acalmou, me abraçou. Chorou comigo. Ele também estava em trabalho de parto.
Chuveiro, bola, banqueta, massagens…e fiquei até meus 7cm de dilatação estacionar e não sair mais do lugar. A pressão começou a subir e horas depois fui transferida para o hospital público Tissyla Balbino em Salvador-Ba, pois a casa de parto tinha seus protocolos a seguir. Frustração total…
Mas com toda a coragem, fomos. Chegamos por volta das 4hs da madrugada do dia 19/06/2014 e lá recebi a tão famosa violência obstétrica que li tanto ao longo dos 9 meses de gravidez. Não deixaram nenhum acompanhante entrar comigo na avaliação. Eu urrando de dores sozinha em uma salinha esperando a médica Rita Braz me avaliar e a enfermeira de plantão neste horário (não sei o nome) gritando da outra sala o pq de eu ainda não estar deitada e que a médica não viria se eu não deitasse. A maca estava com aquele protetor tipo touca de cozinheira já aparentemente usado…estiquei, dei uma arrumada e em meio a uma super contração me deitei. E nem lembrei de tirar o chinelo. A médica Rita veio e com rispidez me perguntou se eu deitava de chinelo no sofá da minha casa.
Chamou a enfermeira que não quis me ajudar a levantar da maca no meio de uma contração fortíssima (e exigindo isto logo!) pois disse que tinha dor nas costas; quando pedi pelo amor de deus por uma cesárea por não agüentar mais a dor e a humilhação, tive ainda que ouvir da médica: não era oq vc queria ao ir para para uma casa de parto? Sentir dor? E para finalizar a enfermeira mandou eu tirar vestido, brincos e tudo e quando me olhou fez cara feia e disse: e ainda vou ter que raspar?
Não acreditei!!!! Nesta hora levantei, coloquei minha roupa, passei na sala da médica, peguei meus exames e fui embora…no meio da madrugada, sem saber para aonde ir, com muitas dores . E a médica Rita lá da sala gritando: pode ir, você não é obrigada a ficar…
Entramos no carro e todos (meus pais, irmã que havia acabado de chegar de São Paulo , marido e doula) com o olhar: e agora?
Vamos para o hospital particular mais próximo!
Eu sem plano de saúde. Todos da família se prontificaram a ajudar.
Minha doula estava junto e nos apoiou muito. E sofreu conosco também vendo aquela situação absurda.
Chegamos no hospital Português, referência em Salvador. Nova tentativa…eu pedindo cesárea para aquilo tudo acabar logo.
O médico de plantão Marcelo disse que eu já estava com 7cm e pra tentarmos normal.
Pedi anestesia, estava exausta…foi um alívio enorme e me deu forças para continuar. Não ia ser natural. Mas seria normal! Uhu! Eu comemorei! Apesar de não ser o que tanto busquei.
Li no soro que tinham colocado ocitosina…e 2hs dps cheguei a 9cm.
Trocou o plantão e o médico que chegou era um senhor chamado Gabriel Bittencourt.
Me examinou (toque e auscuta) e disse para esperar que bebe ainda estava alto e bem. Voltou um pouco depois e fez somente o exame de toque e disse que bebê ainda estava alto e que iria me encaminhar para uma cesárea. Eu comecei a chorar, afinal tudo o que havia planejado tinha dado errado e o Dr. Gabriel ironizou: “Ah não chore que choro também”.
Eu disse então para ele que eu já estava em trabalho de parto há mais de 24 horas e que eu queria tentar mais um pouco. Afinal, só 1cm!!! O bebê na ultima avaliação estava bem. E pedi que me explicasse o porque da indicação de cesárea. E salientei que não me importava em fazer cesárea se necessário, mas gostaria de saber o porque da necessidade. Ele ficou bem nervoso e disse que lavava as mãos dele. E que se meu bebê morresse, a responsabilidade seria minha. Eu insisti que não me importava em fazer cesárea mas que queria que ele me explicasse o porque da indicação dela. Ele saiu e não voltou mais. Fiquei 1hr e meia, com 9cm de dilatação sem qualquer atendimento e sem saber o que pensar. Chamei a enfermeira e pedi que auscultasse o bebê. Ela assim o fez e ele estava bem!
Pedi que chamassem o médico novamente, ele se negou a conversar comigo e chamou meu marido na sala que ele estava. E disse para meu marido não ir no papo “daquela doula”.
Pedi que chamassem outro médico de plantão e contei toda a minha história. Dra Magnolia veio e topou tentar normal e fizemos um cardiotoco e ela disse que as coisas não estavam tão bem pois apareceu no exame um padrão comprimido. Mesmo assim sugeriu exercícios para bebe descer e ele não desceu…eu então exausta, desisti…e optei pela cesárea. Flora veio então ao mundo. Tive que presenciar com dor no coração aquela aspiração, corte do cordão precoce, mesmo pedindo para que nada acontecesse. E quando pedi que não usassem o colírio, afinal o parto era cesárea e não vaginal, a pediatra me falou que eu deveria ter comunicado a coordenação do hospital antes.
Flora foi rapidamente colocada perto de mim para que eu pudesse vê-la e foi levada logo em seguida. Com todos dizendo que ela estava mal e cheia de meconio. Mas recebeu as duas notas 8. Não entendi…Flora nasceu no dia 19/06/14 às 10:56hs. Dr. Gabriel participou da cirurgia e em nenhum momento me olhou ou disse algo durante. Terminou a cirurgia e rapidamente ele saiu. Ele que cortou o cordão logo depois que ela nasceu enquanto Dra. Magnolia a segurava no colo e mesmo eu tendo pedido para esperar o cordão parar de pulsar. Eu vi tudo, pois o pano não foi erguido durante a cirurgia.
Não vi o primeiro banho. E 3 horas depois ela chegou no meu quarto.
A única coisa que me foi permitido e que me restou do meu parto humanizado foi levar para casa minha placenta.
No mesmo dia do nascimento da Flora recebi insistentes visitas da Dra Magnolia ao meu quarto querendo receber seus honorários, pois no dia seguinte iria viajar para o feriado de São João. Eu explicava que meu pai iria fazer o depósito e que ele não estava lá. Para ela ter paciência que o depósito seria feito assim que ele chegasse de volta ao hospital. E ela sempre voltava querendo saber se o depósito já tinha sido feito. Eu e meu marido tentando por telefone resolver com meu pai, que tinha ido embora do hospital e estava no carro levando minha irmã ao aeroporto, indo para casa buscar coisas para mim e bebe. Não era hora de eu me preocupar com mais este assunto. Mas foi resolvido rapidamente conforme pedido dela.
Apenas com o parto da Flora, pude viver 4 tipos de atendimentos a gestantes no Brasil: o amor que circunda o parto domiciliar com equipe humanizada, família, gato, cachorro, todos participando; o lindo atendimento oferecido pelos profissionais da casa de parto, o monstro do hospital público com todo seu desdém e falta de respeito pelo usuário e o sistema do hospital particular que te engole e faz com que o parto seja mais um ato médico, cirúrgico, lucrativo e nada mais.
Agora estamos em casa, peço desculpas por ela ter tido que passar por coisas ruis no primeiro momento de vida.
Mas estamos aqui. Felizes juntas. Passou. Tentamos.
E Flora veio ao mundo na hora dela, pude sentir oq é um trabalho de parto. Só me faltou o expulsivo.
Agora é continuar levando adiante a bandeira da humanização. Contar minha história, ouvir outras histórias. Assim conseguiremos um nascer mais digno para nossos bebês!

Luciana Franco Veríssimo
Mãe de Flora Veríssimo Guimarães
Email: lufverissimo@yahoo.com.br

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