Lia – Nascimento de Aurora

No dia 27 de agosto fomos deitar e estava tudo completamente normal! Eu não sentia nada, não desconfiava de nada. Na segunda anterior a essa quarta eu havia ido no consultório da médica, como já havia passado a 40ª semana, fizemos um exame para ver se Aurora estava se pronunciando e não havia nenhum indício disso! Quando fizemos nosso primeiro contato com a Drª Sônia ela nos comentou que não estaria em Salvador entre 28 e 30 de agosto e eu me lembro que nessa altura pensamos duas coisas:

1º – confesso… Pensei que ela já teria nascido a essa altura! Hehehe Doce ilusão…

2º – se a Aurora resolvesse nascer nesses dias iríamos para o CPN!

Bom, nem uma coisa, nem outra!

Ela ainda estava bem aconchegada na minha barriga e depois de ter o gostinho de planejar meu parto domiciliar eu não iria pra lugar nenhum! Além disso a estimativa de peso e idade gestacional permitida para entrada no CPN estava “estourada” e embora eu saiba que isso é relativo, não queria a insegurança de contar com a boa vontade de quem iria fazer minha recepção pra me aceitar… E por fim eu também sabia que estava amparada pela equipe da Sônia (são três médicas que trabalham conjuntamente com enfermeiras e tudo mais!).

Durante a noite, perto de umas 2 horas da manhã acordei indisposta. Levantei, lavei o rosto e voltei pra cama. Eu não parava de me mexer um minuto e saí da cama com medo de acordar o Gui (meu marido). Já era perto das quatro da manhã quando tive uma ideia: nossa, devo estar tendo contrações! Me concentrei e percebi que a dor ia e vinha! Chamei o Gui e fizemos uma dinâmica (contagem de frequência das contrações) mas as dores estavam “bêbadas”! Vinham duas ou três seguidas e depois espaçavam! Logo percebemos a “doce” realidade: bem vinda ao mundo dos pródromos!

Dias antes eu conversei com a Carol (da Kuara Fotografia) sobre meu parto e ela me contou sobre seus dias e mais dias de pródromos e fiquei espantada! Agora era minha vez! Além disso muitas outras coincidências me aproximaram dela o que tornou a presença e seu trabalho fundamentais!

Ficamos nessa até de manhã e lá pelas 9 horas tudo arrefeceu e pude descansar um pouco.

Nesse dia o Gui e minha mãe já organizaram a casa, forraram meu colchão e travesseiros com plásticos e tudo mais! Depois do almoço eu havia combinado de ver uma amiga e lá fomos eu e minha mãe passear e fazer as unhas, mas em seguida as contrações voltaram! Eu não queria comentar muito pois não tinha a dimensão do que estava por vir. Minha mãe só olhava para mim e “via” as contrações no meu rosto e no fim da tarde voltamos para casa. Mais tarde descobri que ela não era a única a perceber minha “estranheza”…

De quinta para sexta mais uma noite intensa. Dessa vez eu já havia falado à Tanila, nossa enfermeira obstétrica, que me fez algumas recomendações…

Como eu sabia do que se tratava, passei boa parte da noite no sofá tentando driblar a dor! Suor, milhares de trocas de posição e banhos quentes! Ahhh, a água quente é a melhor coisa do mundo… mas eu não queria ficar no chuveiro para evitar o desperdício de água (hehehe)! Outro ponto importante, parto não é ecológico… Aproveite para economizar água em outros momentos de sua vida, porque nesse ela será sua parceira inseparável!

Ao amanhecer pude descansar novamente algumas poucas horas e o Guilherme marcou minha primeira sessão de acupuntura! Fiquei o dia mais reclusa e à noite fomos ver o Dimitri Marques! Benditas agulhas! Além de cuidar de mim, ele acabou com uma contratura muscular que estava entravando meu marido há dias! Saí de lá com as contrações tão amenas que fomos jantar fora, mas conforme o tempo foi passando, o caldo foi engrossando! Nesse noite passei boa parte embaixo do chuveiro pois não queria “montar a banheira” que minha doula atenciosíssima já havia deixado em nossa casa. Assim foi a noite toda…

No sábado fomos tomar um chimarrão numa praça, sair com a nossa cadela para ela correr um pouco… desopilar! Ficamos por casa, já não fui trabalhar (costumo dar aulas de Pilates na manhã de sábado) e só saímos para a nova sessão de acupuntura. Com o cair da noite tentamos deitar para descansar.

Novamente mal consegui deitar, mas nesse dia o Gui já avisou a doula e saiu montando a piscina! Ana, chegou aqui em casa estávamos começando o processo de enchimento da piscina. Quando eu entrei na água foi a melhor sensação dos últimos dias. As dinâmicas já estavam se regularizando e meu marido ficou comigo o tempo todo… me mimando e tentando dividir comigo esse processo.

 

Uma das coisas mais difíceis é ver quem você ama sofrendo por não poder partilhar a dor. Minha sensação, embora de dor, não era de sofrimento! Há uma excitação, uma felicidade e em meio disso, as dores, que na verdade são a ligação do que eu vinha esperando nos últimos tempo: o parto.

No meio da noite lembro de olhar para porta do quarto e ver Tanila, Carol e Marilena, a médica que me foi recomendada mas que estava sem vagas para parto no meu período! Pensei, pronto; Aurora quer nascer na companhia dessas pessoas!

Mas o trabalho de parto foi indo, eu saí da banheira e parece que as coisas foram amornando… Caminhei na rua, subi os doze andares de escadas do meu prédio junto com a Ana, fiz exercícios… mas as contrações que durante a madrugada estavam reguladíssimas e intensas, foram arrefecendo e espaçando resolvi ir para cama deitar um pouco junto com o Guilherme que também estava exausto. Eu só pensava que precisava descansar. Tanila conversou comigo e achamos que todos deviam descansar! Era domingo, o parto estava por vir mas ao que tudo indicava tinha dado uma folga.

Não consegui descansar muito, afinal arrefecer não era parar as contrações; e espaçar significava um intervalo maior que antes, mas não mais do que um mínimo de uma contração a cada 15 ou 20 minutos, sendo que quanto mais demorava para chegar, mais dolorida era!

Almoçamos (minha mãe foi a melhor “guardiã de casa”, sempre com várias comidas e tudo limpinho) e tentei descansar! Ficamos juntos no domingo e no fim da tarde a doula veio me ver!

Conversamos, demos uma volta na praia, pisamos na areia e molhamos os pés na água… Estávamos todos tentando nos conectar com a energia mais produtiva possível. E nessa noite soube que a GO (ginecologista obstétrica) que eu havia escolhido havia voltado de viagem. Depois de um bom papo e um café a Ana (doula) foi pra casa e nós tentamos ir pra cama. Minha mãe estava exausta, não conseguiu dormir durante o dia e o Guilherme e eu também precisávamos.

(In)felizmente era perto da 1 hora da manhã e eu não conseguia mais ficar deitada! Quando a coisa aperta, ficar deitada é impraticável, e a cada contração eu pensava: como é que as pessoas fazem isso deitada e de perna aberta no hospital! Surreal e impossível!

Conforme a dinâmica foi se aproximando conversamos com a doula e próximo às 5 horas da manhã eu pedi para o Guilherme acionar a Tanila, pois queria ver se estávamos, eu e Aurora, bem. Eu não lembro de outro dia na vida estar tão exausta. Muitos dias, muitas horas e muitas expectativas!

Tanila foi a primeira a chegar junto com Carol, nossa fotógrafa.

Embora exausta, eu estava ótima e nossa filhota também.

Era só o cansaço.

Ana estava a caminho e foi nessa hora que Tanila e Carol conversaram comigo!

Dentre nossas opções a enfermeira me ofereceu algumas possibilidades: poderíamos chamar o Dimitri (acupunturista) para acelerar ou dar uma parada no trabalho de parto para eu poder descansar, além disso poderíamos fazer um exame de toque para saber a quantas estávamos.

Pensei…

E concluí: chamar o Dimitri não adiantaria pois eu não tinha ideia do que iria pedir! Simplesmente eu não sabia o que eu preferia. E não ia fazer um toque pois estava decidida que o parto estava “se amarrando” porque eu não deixava ele rolar, ficava tentando negociar com a dor, perceber meu corpo, relaxar… e nada disso funcionava. Saber minha dilatação, além de não ser necessário para equipe médica seria ceder à minha ânsia de saber de tudo e controlar.

Ao conversar com elas percebi que a única coisa que eu não havia feito era ter “deixado rolar” sem controle, sem suposições… Eu e minha bendita de mania de ficar pensando, ponderando e controlando estávamos amedrontando Aurora que estava mais segura lá dentro.

E então decidi: iria voltar para o lugar onde as dores eram mais toleráveis (água) e ia me entregar verdadeiramente para aquilo que eu estava vivendo.

Desse momento em diante lembro de não mais deitar na piscina e deixar o corpo responder à dor, sem pensar no que seria uma boa posição, apenas deixando o movimento fluir, fosse ele no corpo, no olho ou na garganta.

Lembro de ver mãos e cuidado em volta de mim.

Lembro de sentir a presença próxima do meu marido e a distância carinhosa e respeitosa da minha mãe.

Lembro de sentir a segurança do olhar e exames da Tanila e das idas e vindas da Ana!

Lembro de não me importar se meu joelho ia doer pois estava muito em quatro apoios.

Lembro de pedir água.

Lembro de sentir a força chegar.

Lembro de sentir a cabeça da minha filha descendo através do meu corpo (e de debater com Tanila sobre se era a bolsa ou a cabeça).

Lembro de silenciar para curtir o momento.

Lembro de ver o rosto da Sônia chegando na porta do meu quarto.

Lembro de comunicar: “o círculo de fogo chegou”; brincar “é agora que peço uma cesárea?” e ouvir Carol dizer “agora só se for uma episiotomia!”.

Lembro de rir.

Lembro de sentir o tal círculo e ir e voltar.

Lembro de ouvir Sônia dizer “ela está aqui!”.

Lembro de pensar que estava me despedindo da barriga mais linda que vi na vida!

Lembro da vontade de fazer força.

Lembro da instrução de força longa, intensa e contínua.

Lembro do cheiro de parto no ar.

E por fim lembro de perceber, esperar um bom puxo, respirar fundo e sentir todo corpo da minha filha deslizando para o mundo de uma só vez.

Daí só lembro do rosto dela!

Dos lindos olhos que me olharam!

Dos braços do meu marido ao meu redor!

Da felicidade!

Da satisfação!

E da sensação de que a vida vale a pena!

De que eu faria tudo novamente!

Depois disso foi tudo uma festa!

Ela mamando e todos nós sorrindo e comentando sobre nossas recentes lembranças!

Descobri que fiquei muito ensimesmada e permiti que o Guilherme fizesse um toque em mim (e soube que ele se desmanchou depois disso!), o que deve ter sido um momento lindo!

Soube que meu rosto se iluminou com a chegada da Sônia.

Soube que mal a médica tocou a Aurora para me entregá-la e eu a agarrei nos meus braços desesperadamente!

Enfim, soube que eu havia me tornado uma mãe!

E foi exatamente como tinha que ser!

E essa sensação é indescritível.

Aurora nasceu no dia 01 de setembro de 2014 às 10:44 da manhã numa piscina plástica armada no meu quarto em Salvador. Chegou ao mundo com 52 cm e 3.935 kg e contou com uma equipe maravilhosa que envolvia primeiramente minha família, meu marido Guilherme e minha mãe Leila e os profissionais que escolhi: Dr. Sônia Sallenave (GO); Tanila Glaeser (Enfermeira Obstétrica), Carol Lube (fotógrafa) e Ana Boulhosas (minha doula que me orientou desde o princípio da nossa gestação). Eu pude contar com a ajudar da Marilena (GO back-up/da equipe da Sônia), o Dimitri Marques (acupunturista) e a equipe do CPN (exames). Minha recuperação foi tranquila (muito embora tenha demorado mais que a média para “parir a placenta”) e praticamente não precisei de nenhuma intervenção médica (a exceção de alguns poucos pontos que tomei deitada sob a minha cama com uma anestesia local enquanto comia o bolo de chocolate que minha mãe fez e suco de uva). Conforme nossa orientação e decisão a Aurora não tomou banho no mesmo dia e fomos nós mesmos que a banhamos no quarto dela no dia seguinte ao seu nascimento. Quem deu esse banho foi o seu pai, junto com sua mãe e avó (ela odiou o banho!). Ela não recebeu colírio de nitrato de prata nos olhos, mas tomou a vitamina K sob nosso consenso. Não tomou suplementos de glicose ou leite artificial e foi examinada pela equipe médica que nos acompanhou no dia do seu nascimento. Na mesma semana foi examinada por uma neonatologista que atestou seu ótimo estado de saúde e passou os exames de rotina e vacinas. Tanto eu quanto ela recebemos todo cuidado médico necessário para nosso bem estar e segurança e eu não precisei de hospital em momento algum. E foi assim, dentro do possível como planejado e cheio de imprevisibilidade como deve ser a vida.

Eu tive a dádiva de me tornar mãe como escolhi.

E desejo que cada pessoa que leia esse relato possa vivenciar essa experiência que deveria ser de direito de todos.

Originalmente publicado em: https://liasfoggia.wordpress.com/humanize-se/relato-de-parto-auroresceu-em-nossas-vidas-pela-mae-lia-sfoggia/

Outras imagens em Galeria

Deixe um comentário